TV IN BLACK & WHITE 11: SHE AIN’T GOT NOTHING AT ALL




  Era uma noite fria de inverno. Nós todos ainda éramos jovens demais para pensar sobre as consequências da vida.
   Fazia não mais de um mês que Alexa e eu havíamos começado a namorar. Ela me levou ao apartamento de uma amiga onde uma pequena festa estava acontecendo, pois disse que queria que eu conhecesse seus amigos. Então, eu fui.
  Chegando lá, subimos até o terraço e logo pude ouvir a música que ecoava pelo vão do elevador. Quando as portas se abriram, o vento gelado atingiu meu rosto. Havia luzes de natal por todo o lugar, as pessoas conversavam e riam de piadas sem sentido. Alexa me puxou pela mão e me guiou até o canto, onde uma garota estava sentada em uma daquelas almofadas gigantes. Ela olhava para seu drink, mas não o bebia. Minha namorada então chamou sua atenção. Ela levantou o seu olhar até nós e pude ver que se forçou a sorrir.
  - Alex, esta é Elle. Minha amiga e dona da festa – disse Alexa.
  Elle franziu os lábios antes de murmurar um “olá”.
  Eu a observava enquanto The Velvet Underground tocava ao fundo e todo o resto parecia estar em câmara lenta. Enquanto Alexa ria com seus amigos, fui até ela sem que ninguém me notasse. Ela continuava sentada no mesmo lugar. Ainda encarando seu drink, mas sem leva-lo a boca uma vez se quer.
  Sentei-me ao seu lado e permaneci em silêncio. Elle pareceu não se incomodar com minha presença, porque no fundo era tudo o que queria. A companhia de um estranho.
  - Você está bem? – perguntei.
  Ela riu sem vida.
  - Não. Mas obrigada por perguntar.
  Depois de um momento em silêncio, voltei a falar:
  - Essa música... Foi você que escolheu?
  Elle concordou com um aceno.
  Os versos do refrão se repetiam enquanto eram jogados ao ar pelo alto-falante.
  Oh sweet nuthin’, she ain’t got nothing at all.
  - Então você não está muito bem, não é?
  Elle me olhou nos olhos pela primeira vez. Contemplativa, admirada com a preocupação de alguém que ela acabara de acontecer.
  - É só que ás vezes eu me sinto como se eu não tivesse nada, mesmo tendo tudo – respondeu.
  - Eu te entendo muito bem.
  - Eu não acho que entenda.
  - Se não entendesse, eu não teria vindo até aqui.
  Voltamos a ficar em silêncio e a música ainda rodava na vitrola. Estava muito frio, mas ela não vestia casaco. Seus braços eram finos demais, assim como suas pernas. Reparei então em seu rosto. Abatido, com uma expressão infeliz.
  - Você quer conversar?
  Ela negou balançando a cabeça.
  - Você tem certeza? – insisti.
  - Por um acaso isso faz alguma diferença para você?
  Eu não soube responder. Talvez me sentisse mal por vê-la daquele modo, sozinha no meio de tantas pessoas.
  - Você não sabe como é se sentir como lixo, sabe? – perguntou – Porque é assim que eu me sinto. Eu já dormi com tantos caras que eu desisti de contar nos dedos, tudo isso só porque eu queria sentir algo. Sentir-me... Não sei, desejada? Ou talvez amada? Ou ainda, eu só queria sentir alguma coisa – Elle fez uma pausa e cruzou os braços – Eu queria ter alguém para me proteger e se importar comigo, agora que meus pais se mudaram e eu fui deixada no mundo real para lidar com tantas coisas ao mesmo tempo.  Quando eu estou no meu quarto sozinha, eu me sinto tão triste. E eu nunca falo disso com ninguém, porque eu acho que no fundo eu espero que eles percebam. E no fim, eu acho que procuro pelas respostas nos lugares errados.
  Eu escutei seu desabafo e senti-me submerso em uma câmara cheia d’água, como se não pudesse respirar. Partia-me o coração ver seu rosto, tão belo, manchado pelo discreto choro.
  - Me desculpe por isso.
  - Não tem porque se desculpar – respondi calmamente.
 Elle me encarou com os olhos que brilhavam por conta das lágrimas. Um nó em minha garganta formou-se e me questionei se eu estava com a garota certa.
  - Eu tenho que ir, aproveite a festa.
  Então ela se levantou e não voltou mais. A partir daquele dia, tudo mudou. Não saberia apontar exatamente o motivo da mudança, mas ela ocorrera sem dúvida. Quando eu estava por perto, Elle sempre estava distante. Se Alexa a convidava para sair, negava ao descobrir que eu também iria. Quando aceitava, nunca dirigia uma palavra a mim, a não ser que fosse algum comentário sarcástico, como no dia em que saímos para comemorar o aniversário de Alexa em Londres.
  - Vamos tocar na América mês que vem, esperamos um grande público - respondi ao amigo que havia perguntado sobre a tour.
  - Não sabia que os Estados Unidos já estavam liberando passaportes para Hobbits. Acho que votei no presidente errado.
  - O que você disse?
  - Você sabe. Um pequeno homem tentando fazer coisas que na realidade ele nunca conseguiria.
  - Elle! – Alexa repreendeu-a.
  - Me desculpe, mas qual é o seu problema? - ri sem graça.
  - Você age como se já fosse alguém especial, mas ninguém ainda sabe seu nome. Eu sei qual é o meu problema Alex, já você parece não fazer ideia de qual é o seu.
  Senti-me patético, como um pequeno garoto no primeiro dia de aula. Olhei a minha volta e percebi que todos eles eram the cool kids from high school.
  Ela fizera com que meu rosto ficasse vermelho e conseguiu me calar pelo resto da noite.

  Os trovões sacudiram a noite, assim como os raios que iluminavam o grande céu, mas ainda não chovia. Senti-me amargurado, lembrando-me de um tempo em que minha relação com Elle parecia ser ainda pior. Ela era tão cruel comigo.
  Entretanto, ali estava eu, na antiga casa de seus pais. Sentado no balanço em que ela brincava quando criança, como havia feito nas últimas semanas que se passaram. Desejando do ponto mais fundo e mais sincero de meu coração por qualquer sinal dela. Sem luz na escuridão, estava completamente cego, pois ninguém me falava coisa alguma. Elle não queria notícias minhas.
  A chuva iria cair a qualquer momento, mas naquela noite a tempestade não era a única coisa que estava por vir. Tão de repente como as nuvens que encobriram o céu, vi o momento que tanto esperei desenrolar-se em frente aos meus olhos. A luz da varanda acendeu-se como se iluminasse um antigo palco para a sua entrada. A porta dos fundos então se abriu e eu finalmente pude vê-la. Seus passos ecoaram na madeira com cautela, enquanto eu permaneci paralisado no lugar.
  - Quem está ai? – perguntou assustada – Alex é você?
  Obriguei meus músculos a obedecerem meus comandos. Deixei o velho balanço para trás e aproximei-me de Elle. Só então entendi que ela não era um devaneio de minha mente. Ela realmente estava ali.
  - Sim, sou eu.
  - O que você está fazendo aqui? – sua feição relaxara, mas ainda via a confusão estampada em seu rosto.  
  Elle havia mudado. Seu cabelo estava mais escuro, o que julguei ser seu tom natural. Seu físico também aparentava estar mais saudável, pois seus ossos que às vezes pareciam ser extremamente saltados, já não chamavam tanto a atenção. Ela parecia estar melhor em todos os aspectos.  
  - Esperando por você, eu acho. Mas sinceramente agora já não tenho certeza disso.
  Com os braços cruzados, me encarou em silêncio. O frio cortante agora começara a incomodar por conta do vento e os trovões ficavam cada vez mais fortes. Ali ela estava, depois de tanto tempo, mas eu não sentia aquilo que achei que iria sentir.
  - Vamos entrar, está frio – disse indo em direção à porta.
  - Eu não quero entrar.
   Ela parou abruptamente e voltou a me fitar. Nada que pudesse falar iria amenizar a dor que rasgava meu peito de um lado a outro.
  - Alex... Eu não sei o que te dizer.
  - Por que você não começa me respondendo por que você não teve a consideração de pelo menos retornar minhas ligações uma única vez?
  Elle desviou o olhar para o chão.
  - Você me magoou mais do que eu pensei e eu estava me sentindo culpada por tudo o que fizemos – sua voz quase sumira.
  Meu estômago deu um nó e um mal-estar tomava conta de mim em resposta a meu estado mental. Como ela podia estar sendo hipócrita daquele modo?
  - Você fala sobre como eu a magoei, mas não percebe que eu sofri tanto quanto você. Não ouse me botar como o vilão da história Elle Deville.
  - Não foi você que magoou seus melhores amigos e...
  - E quanto a mim? Você acha que não me magoou? Todos esses anos você me tratou como um imbecil! – falava alto e era como se minha voz sobressalta-se os trovões –  Por um tempo, eu realmente acreditei que toda aquelas cenas era porque você sentia algo por mim, mas talvez fosse porque você gostava de ser má comigo.
  Suas lágrimas vieram com a chuva torrencial que começara a cair.
  - Você não pode jogar essas coisas em cima de mim – gritou com raiva – Você não pode!
  Elle limpou seu rosto com as mãos e se sentou no beiral da varanda, ignorando as gotas que pingavam sobre ela.
  - Eu não voltei para ter isso de novo – murmurou.
  Engoli seco e senti uma vontade incontrolável de socar a parede. Assim como ela, eu também queria chorar. Eu queria chorar porque eu estava fazendo mal á ela. Eu queria chorar porque sentia raiva. Ter Elle era tudo o que eu queria, mas nossa relação era radioativa. Envenenava tudo e á todos a nossa volta.
  - Foi um erro ter te esperado.
  Ela já não chorava mais. Estava com a cabeça baixa, encolhida, como se tentasse escapar de tudo aquilo.
  - Por que é tão difícil ama-lo, Alex?
  Sorri involuntariamente ao ouvir sua pergunta. Foi a terceira vez em minha vida que ouvi as mesmas palavras, me fazendo o mesmo questionamento.
  - Eu gostaria que você pudesse me responder.
  - Eu não posso – seus olhos encheram-se de lágrimas novamente – Mas eu espero que você descubra antes que tenha que perguntar para outra pessoa. 


***

N/A: Olá meninas!! TVIBW is in da house! Eu estava com saudades dessa fic, então eu resolvi sentar na frente do computador e escrever o capítulo. Espero que vocês tenham gostado apesar da demora, vou tentar não levar tanto tempo para atualizar, afinal ela está em seus últimos capítulos e não custa nada eu fazer isso por vocês. Enfim, acho que é isso. Beijão da Bel ♥

4 comentários:

  1. '' É só que ás vezes eu me sinto como se eu não tivesse nada, mesmo tendo tudo – respondeu.'' Me identifiquei muito, meu deus. Adorei o capítulo Bel, como sempre, sua escrita é envolvente pra caramba. Eu adoro esses dois, eles são tão... certos um para o outro. <3

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  2. Amei Amei Amei, continua logo por favor!!! todos esses meses sem a fic já foram o bastante.

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  3. Raphaela L. Siqueira19/02/2015 15:42

    Que saudades do meu xodó, que saudades de Elle e do Alex, que saudades de "TV In Black and White" <3
    Esses dois, esses dois...não vão se acertar nunca, não? Será que eles não percebem que foram feitos um pro outro? Se joguem queridos!
    A fic está mesmo nos seus últimos capítulos, né? Não sei se estou preparada! =(
    Bel, não nos deixe mais esperando tanto, por favor!
    Beijinhos <3

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  4. nem consegui acreditar que vc retomou a escrever <3333 obrigadaaaaa, esperei tanto por isso ! essa fanfic é um amorzinho!!! melhor fanfic que já li em toda minha vida. Não nos abandone novamente :´(

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